História de Um Filho da Puta

Estava sentado no meu escritório quando lembrei de uma chamada telefônica que tinha que fazer. Encontrei o número e disquei. Atendeu-me um cara mal humorado dizendo:

— Fale!

— Bom dia. Poderia falar com Andréa?

O cara do outro lado resmungou algo que não entendi e desligou na minha cara. Não podia acreditar que existia alguém tão grosso. Depois disso, procurei na minha agenda o número correto da Andréa e liguei. O problema era que eu tinha invertido os dois últimos dígitos do seu número.

Depois de falar com a Andréa, observei o número errado ainda anotado sobre a minha mesa. Decidi ligar de novo. Quando a mesma pessoa atendeu, falei:

— Você é um filho da puta!

Desliguei imediatamente e anotei ao lado do número a expressão "filho da puta" e deixei o papel sobre a minha agenda. Assim, quando estava nervoso com alguém, ou em um mau momento do dia, ligava prá ele, e quando atendia, lhe dizia "Você é um filho da puta" e desligava sem esperar resposta. Isto me fazia sentir realmente muito melhor. Ocorre que a Telemar introduziu o novo serviço "bina" de identificação de chamadas, que me deixou preocupado e triste porque teria que deixar de ligar para o "filho da puta". Então, tive uma ideia: disquei o seu número de telefone, ouvi a sua voz dizendo "Alô" e mudei de identidade:

— Boa tarde, estou ligando da área de vendas da Telemar, para saber se o senhor conhece o nosso serviço de identificador de chamadas "bina".

— Não estou interessado! – disse ele, e desligou na minha cara.

O cara era mesmo mal-educado. Rapidamente, disquei novamente:

— Alô?

— É por isso que você é um filho da puta! – e desliguei.

Alguns dias depois, eu fui até o shopping, no centro da cidade, comprar umas camisas. Uma senhora estava demorando muito tempo para tirar o carro de uma vaga no estacionamento. Cheguei a pensar que nunca fosse sair. Finalmente seu carro começou a mover-se e a sair lentamente do seu espaço. Dadas às circunstâncias, decidi retroceder meu carro um pouco para dar à senhora todo o espaço que fosse necessário: "Grande!" pensei, "finalmente vai embora". Imediatamente, apareceu um Vectra preto vindo do outro lado do estacionamento e entrou de frente na vaga da senhora que eu estava esperando. Comecei a tocar a buzina e a gritar:

— Ei, amigo. Não pode fazer isso! Eu estava aqui primeiro!

O fulano do Vectra simplesmente desceu do carro, fechou a porta, ativou o alarme e caminhou no sentido do shopping, ignorando a minha presença, como se não estivesse ouvindo. Diante da sua atitude, pensei: "Esse cara é um grande filho da puta! Com toda certeza tem uma grande quantidade de filhos da puta neste mundo!". Foi aí que percebi que o cara tinha um aviso de "VENDE-SE" no vidro do Vectra. Então, anotei o seu número telefônico e procurei outra vaga para estacionar.

Depois de alguns dias, estava sentado no meu escritório e acabara de desligar o telefone – após ter discado o número do meu velho amigo e dizer "Você é um filho da puta" (agora já é muito fácil discar pois tenho o seu número na memória do telefone), quando vi o número que havia anotado do cara do Vectra preto e pensei: "Deveria ligar para esse cara também". E foi o que fiz. Depois de um par de toques alguém atendeu:

— Alô.

— Falo com o senhor que está vendendo um Vectra preto?

— Sim, é ele.

— Poderia me dizer onde posso ver o carro?

— Sim, e u moro na Rua XYZ, n° 1234. É uma casa amarela e o Vectra está estacionado na frente.

— Qual e o seu nome?

— Meu nome e Eduardo — diz o cara.

— Qual a hora é mais apropriada para encontrar com você, Eduardo?

— Pode me encontrar em casa à noite e nos finais de semana.

— É o seguinte Eduardo, posso te dizer uma coisa?

— Sim.

— Eduardo, você é um grande filho da puta! — e desliguei o telefone.

Depois de desligar, coloquei o número do telefone do Eduardo (que parecia não ter "bina", pois não fui importunado depois que falei com ele) na memória do meu telefone. Agora eu tinha um problema: eram dois "filhos da puta" para ligar. Após algumas ligações ao par de "filhos da puta" e desligar-lhes, a coisa não era tão divertida como antes. Este problema me parecia muito sério e pensei em uma solução: em primeiro lugar, liguei para o "filho da puta 1". O cara, mal-educado como sempre, atendeu:

— Alô — e então falei:

— Você é um filho da puta — mas desta vez não desliguei. O "filho da puta 1" diz:

— Ainda está aí, desgraçado?

— Siiimmmmmmmm, amorrrrrr!!! – respondi rindo.

— Pare de me ligar, seu filho da mãe – disse ele, irritadíssimo.

— Não paro nããão, filho da putinha querido!!!

— Qual é o teu nome, lazarento? – berrou ele, descontrolado! Eu, com voz séria de quem também está bravo, respondi:

— Meu nome é Eduardo, seu filho da puta. Por quê?

— Onde você mora, que eu vou aí te pegar, desgraçado? – gritou ele.

— Você acha que eu tenho medo de um filho da puta? Eu moro na Rua XYZ, n°1234, em uma casa amarela, e o meu Vectra preto está estacionado na frente, seu palhaço filho da puta. E agora, vai fazer o quê? – gritei eu.

— Eu vou até aí agora mesmo, cara. É bom que comece a rezar, porque você já era. — rosnou ele.

— Uuiii! É mesmo? Que medo me dá, filho da puta. Você é um bosta! E eu estou na porta da minha casa te esperando! – e desliguei o telefone na cara dele. Imediatamente liguei para o "filho da puta 2".

— Alô — disse ele.

— Olá, grande filho da puta! — falei.

— Cara, se eu te encontrar vou...

— Vai o quê? O que você vai fazer? Seu filho da puta!

— Vou chutar a sua boca até não ficar nenhum dente, cara!

— Acha que eu tenho medo de você, filho da puta? Vou te dar uma grande oportunidade de tentar chutar minha boca, pois estou indo para tua casa, seu filho da puta! E depois de arrebentar sua cara, vou quebrar todos os vidros desta porcaria de Vectra que você tem. E reze pra eu não botar fogo nessa casa amarelinha de bicha. Se for homem, me espera na porta em 5 minutos, seu filho da puta! — e bati o telefone no gancho.

Logo, fiz outra ligação, desta vez para a polícia. Usando uma voz afetada e chorosa, falei que estava na Rua XYZ, nº 1234, e que ia matar o meu namorado homossexual assim que ele chegasse em casa. Finalmente peguei o telefone e liguei o programa da CNT "Cadeia" do Alborguetti, para reportar que ia começar uma briga de um marido que ia voltando mais cedo para casa para pegar o amante da mulher que morava na Rua XYZ, nº 1234. Depois de fazer isto, peguei o meu carro e fui para Rua XYZ, nº 1234, para ver o espetáculo. Foi demais, observar um par de "filhos da puta" chutando-se na frente da equipe de reportagem, até a chegada da viatura da polícia, que levou os dois algemados e arrebentados para a delegacia.

Moral da história? Não tem moral nenhuma! Foi de sacanagem mesmo.

E vê se atende ao telefone educadamente, pois posso ser eu ligando para você por engano.